O paciente foi taxativo na minha primeira consulta Online com ele, assim disse sem titubear:
-Ah, Marcos. Me desculpe, mas achei que você não ia me atender, depois que fiz o depósito da sessão para você. Você me desculpa, mas sabe como é: Tem muito golpe na internet. Nada foi suficiente para ele, pois havia enviado dezenas de entrevistas a Tv Globo Minas, meu registro profissional, avaliações positivas no Google, minhas redes sociais com milhares de pessoas, afinal são mais de 30 anos de trabalho como terapeuta.
Aquele paciente desconfiava não de mim, ele não acreditava nele. O grande problema da desconfiança infundada é que parece ser razoável ser cauteloso com o externo, quando o inimigo da sua paz encontra-se na esquina do seu sistema de pensamento.
Como Psicólogo percebo o seguinte: Nem toda desconfiança começa no outro.
Muitas vezes, ela nasce dentro — e a ansiedade faz questão de mantê-la viva.
A ansiedade não é só preocupação.
Ela é um estado de alerta constante, uma tentativa do cérebro de prever, evitar e controlar possíveis dores. Para você entender melhor, imagina um guerreiro samurai que de tanto ir para combates e guerras, se acostumou tanto em usar sua armadura, que quando chega em casa também usa para dormir, descansar, relaxar, ou seja, aquilo que protegia também o deixa exausto e cansado.
A ansiedade reconfigura os processos cognitivos, afetas as emoções, mexe com a libido e o sono. E, quando ela se mistura com a desconfiança, surge algo silencioso, mas extremamente desgastante:
A hipervigilância neurótica
A hipervigilância é quando você nunca desliga.Você observa tudo, analisa tudo, interpreta tudo.
Um detalhe vira dúvida.
Um silêncio vira ameaça.
Uma mudança pequena parece carregar um significado enorme. Por fim, oportunidade tornam- se suspeitas, estranhos são classificados como ameaças, assim você tem se afogar no ralo da pia.
Eu sei, você não quer viver assim.
É porque, no fundo, você está tentando se proteger.Geralmente, isso tem história, bem como experiências de decepção, mentira, abandono ou quebra de confiança ensinam o cérebro que é perigoso relaxar.
Então ele cria uma regra interna:
“é melhor desconfiar do que ser pego de surpresa”, é mais seguro não se envolver do que perder o controle.
O problema é que essa proteção tem um custo alto. Porque, na tentativa de evitar a dor, você começa a viver em função dela.
E a sua mente passa a buscar sinais — não necessariamente a verdade.
É aí que o ciclo se forma:
Você desconfia →fica ansioso →entra em estado de vigilância →Interpreta sinais →
reforça a desconfiança →e a ansiedade cresce ainda mais.
Mas existe uma camada ainda mais profunda: a projeção, calma vou explicar:
A projeção acontece quando inseguranças internas são colocadas no outro.Não de forma consciente, mas automática.
Às vezes, o medo não é exatamente do outro —é de não ser suficiente, de não perceber sinais, de ser abandonado, de não conseguir lidar com uma possível dor.
Então, sem perceber, você começa a enxergar fora aquilo que, na verdade, está dentro.O outro vira o lugar onde seus medos ganham forma.E isso cansa.
Cansa viver tentando descobrir algo.Cansa não conseguir relaxar.Cansa sentir que a qualquer momento algo pode dar errado.
E, enquanto isso, a vida vai ficando em segundo plano.Porque a mente está ocupada demais tentando prever o futuro
e revivendo o passado.
O ponto mais importante é entender:
nem toda desconfiança é intuição.
Muitas vezes, é ansiedade tentando evitar uma dor que ainda nem aconteceu.
E quanto mais você tenta controlar, mais preso fica.
O caminho não está em vigiar mais.
Nem em buscar mais certezas.Está em construir segurança interna.Em aprender a diferenciar fato de interpretação, presente de passado, Intuição de medo.Está em aceitar que não é possível ter controle total —mas é possível desenvolver estabilidade emocional para lidar com o que vier.
Finalmente , confiar não é ausência de risco.
É a capacidade de sustentar a incerteza sem se perder de si.No fim, não é sobre parar de desconfiar do mundo.
É sobre não deixar que o medo controle a forma como você vive nele, seus pensamentos podem ter oferecido muitas conquistas a você, no entanto confiscaram sua paz.
Marcos Bersam
Psicólogo
