Hoje quero falar contigo sobre uma forma cruel de manipulação, ou seja, nessa modalidade a pessoa manipula, abusa das culpa do outro de forma velada e sorrateira, por vezes, tem o verniz do “amor” e do cuidado com o outro.
Nem todo abuso vem embrulhado naquele estigma de Hollywood, socos, gritos, violência fisica. Devo dizer para você que tem gente que nunca levanta a voz — por exemplo, pode ser uma mãe, vejo muito isso no consultório como Psicólogo – mãe passivo- agressiva. Ou seja, essas pessoas juram que fazem “tudo por amor”, mas deixam você exausto e doente emocionalmente.
No consultório, uma das dinâmicas mais difíceis de identificar (e de lidar) não é a agressividade explícita, mas aquela que vem disfarçada de silêncio, ironia ou “esquecimento”, embrulhada na narrativa do zelo, cuidado e amor.
É o comportamento passivo-agressivo. Ele não confronta diretamente, mas também não é neutro. Ele fere — só que de forma indireta, ambígua e, muitas vezes, difícil de provar.
O que é, de fato, uma pessoa passivo-agressiva?
A passivo-agressividade é uma forma de expressar raiva, frustração ou resistência sem assumir isso de maneira clara. Em vez de dizer “isso me incomoda”, a pessoa age de forma a demonstrar incômodo sem se responsabilizar por ele.
É uma comunicação torta. E, com o tempo, extremamente desgastante para quem convive.
Exemplos do dia a dia
Esse comportamento costuma aparecer em pequenas atitudes que, isoladamente, parecem banais — mas que, repetidas, constroem um padrão:
*A pessoa concorda com algo, mas “esquece” de fazer depois
*Responde com sarcasmo disfarçado de humor: “Nossa, você é sensível, hein?”
*Faz elogios com veneno: “Você até que foi bem, para alguém sem experiência”
Usa o silêncio como puniçãoNunca diz diretamente o que sente, mas muda o clima do ambiente.
Faz corpo mole de propósito quando está contrariada
Evita conflito, mas cria tensão constante
E temos aquela mãe que diz para o filho sair e se divertir, mas na sequência fala: Então, você vai, mas sabe que minha pressão sobre é de noite, daí você já viu?!
O ponto central: há uma emoção ali (geralmente raiva ou ressentimento), mas ela não é assumida. Em vez disso, é desviada.
Por que alguém se torna passivo-agressivo?
Na maioria das vezes, isso não nasce por maldade pura. É um padrão aprendido.
Muitas pessoas cresceram em ambientes onde expressar raiva era proibido, punido ou visto como algo errado. Então aprenderam a engolir o que sentem — mas o sentimento não desaparece. Ele só encontra outras formas de sair.
Também há medo de rejeição, dificuldade de confronto e, em alguns casos, uma necessidade de controle.
A passivo-agressividade é, no fundo, uma tentativa mal resolvida de lidar com emoções que a pessoa não sabe expressar de forma madura.
A manipulação silenciosa
Aqui está o ponto mais delicado.O comportamento passivo-agressivo muitas vezes carrega um tipo de manipulação difícil de identificar porque não é explícita. A pessoa cria situações em que você:
Se sente culpado sem saber exatamente por quê. É comum a pessoa ficar confuso sobre o que realmente aconteceu. Não demora muito a vítima começa a duvidar da própria percepção.Sente que está sempre “pisando em ovos”.
E, quando você tenta confrontar, ela responde com frases como:
-“Você está exagerando”
-“Eu não fiz nada”
-“Você que entendeu errado”
Isso gera um desgaste emocional silencioso, porque não há um conflito claro para resolver — apenas um desconforto constante.
Como perceber esse padrão
Alguns sinais ajudam a identificar quando você está lidando com alguém passivo agressivo:
1)Você sai das interações se sentindo drenado, confuso ou culpado
2)A pessoa raramente expressa insatisfação de forma direta
3)Existe uma incoerência entre o que ela diz e o que ela faz
4)Pequenas atitudes parecem carregadas de intenção, mas nunca são assumidas
Conversas importantes nunca chegam a uma resolução clara.
Se você precisa constantemente interpretar “o que a pessoa quis dizer”, já é um sinal de alerta.
Como se blindar emocionalmente
Aqui não se trata de mudar o outro — isso, na maioria das vezes, não está sob seu controle. O foco é proteger sua saúde emocional.
Alguns caminhos práticos:
1. Nomeie o que está acontecendo (com calma) Sem acusar, traga para o concreto: “Quando você diz que está tudo bem, mas depois age diferente, eu fico confuso. Prefiro que seja direto comigo.”
2. Não entre no jogo implícito A pessoa passivo-agressiva quer que você adivinhe, reaja ou se sinta culpado. Não aceite esse papel.Se algo não foi dito claramente, trate como não dito.
3. Peça clareza — e espere clareza “Você está incomodado com algo? Se estiver, pode me dizer diretamente.”Se a pessoa não responde com clareza, isso também já é uma resposta.
4. Estabeleça limites Principalmente com ironias, indiretas e silêncios punitivos: “Eu prefiro conversar de forma direta. Se não for assim, eu vou me afastar dessa conversa.”
5. Observe padrões, não episódios isolados Todo mundo pode agir mal em um dia ruim. O problema é quando isso vira padrão.
6. Preserve sua sanidade emocional Nem toda relação precisa ser mantida a qualquer custo. Em alguns casos, o melhor limite é o distanciamento.
Um ponto importante, muito complicado quando essa pessoa é sua mãe, pai, irmão.
Conviver com alguém passivo-agressivo pode fazer você começar a duvidar de si mesmo. Por isso, é essencial confiar na sua percepção.
Se algo parece estranho, pesado ou incoerente — provavelmente é.
E mais importante: comunicação saudável não exige decifração constante. Relações maduras são diretas, claras e responsáveis.
Por fim, o desgaste costuma também vir daqueles que juram te amar, por isso não basta dizer que te ama, mas é importante você saber como essa pessoa ama você.
Se ela tira sua paz, alimenta sua culpa, deixa você exausta e confusa, por certo, há algo que precisa ser revisto.
Marcos Bersam
Psicólogo.
