Como Psicólogo percebo todo dia nos meus atendimentos psicológicos uma dificuldade do paciente entender que a mesma pessoa que jura proteger você, também é aquela que controla; em muitos casos a pessoa tenta ser convencida que submissão é sinônimo de amor.
Nenhum abuso nasce grande e com maioridade, ou seja, todo abuso vai ter uma justificativa plausível e insana:
-Faço isso por te amar muito!
-Sua família não te ama.
-Suas amigas não prestam.
-Essa roupa está vulgar para você.
Onde está a origem do abuso? Qual anatomia da agressão? O amor deve confundir tanto sua percepção?
Gaslighting não começa com um grito, nem com um direto no queijo.
Começa com um detalhe quase invisível — uma dúvida plantada com cuidado. Um “você entendeu errado”, um “isso nunca aconteceu”, um “você está exagerando”.
E, aos poucos, aquilo que era certeza vira confusão. Aquilo que era intuição vira culpa.
Hoje, a psicologia entende o gaslighting como uma forma sofisticada de abuso emocional que atua diretamente na sua percepção da realidade.
Sempre falo que temos a alucinação e a ilusão. No amor tóxico a ilusão quase vira uma alucinação provocada pelo abusador.
-Será que estou vendo coisas?
-Será que estou ficando louca?
Não é apenas sobre mentir — é sobre desorganizar o seu senso interno de verdade. A pessoa não tenta só te convencer de algo falso; ela tenta fazer você duvidar da sua própria mente.
Ou seja, nós temos uma bússola existencial, um orientador interno, um sábio, um mestre, um arquétipo da sabedoria, por vezes, esse aparato emocional transborda pela intuição.
E isso tem efeitos profundos. Estudos recentes mostram que vítimas de gaslighting apresentam aumento de ansiedade, dificuldade de tomada de decisão, queda na autoestima e até sintomas dissociativos, bem como ideação suicida.
Deste modo, quando você não confia mais no que sente ou lembra, você perde o seu principal ponto de referência: você mesmo.
Mas o mais perigoso é que o gaslighting raramente é óbvio. Ele se disfarça de cuidado, de preocupação, de “jeito de ser”. Por isso, reconhecer os sinais é um ato de lucidez — e também de proteção.
Alguns dos sinais mais importantes:
Você começa a se questionar o tempo todo, mesmo sobre coisas simples. Então , sente que precisa de validação externa para confirmar o que viveu.
Não demora muito pede desculpa com frequência, mesmo sem entender exatamente por quê.
-Desculpa qualquer coisa!
Já percebeu isso? A pessoa se desculpa pelo que nem sabe ter feito.
Você se sente emocionalmente confuso depois de conversas específicas. Sempre fica pisando em ovos, logo percebe que está sempre “explicando demais” a sua própria realidade.
E talvez o mais silencioso de todos: você sente que está se afastando de si, se olha no espelho e não se reconhece mais como um indivíduo.
A psicologia contemporânea também aponta um ponto essencial: o gaslighting não funciona apenas por causa do manipulador — ele se sustenta quando encontra vulnerabilidades emocionais, como medo de abandono, necessidade de aprovação ou histórico de invalidação. Isso não é culpa sua.
A terapia é um convite ao retorno à consciência, por issorque sair desse ciclo não começa enfrentando o outro. Começa recuperando a sua própria percepção.
Nomear aquilo que você sente, mesmo que ainda pareça confuso.Escreva situações — registrar a realidade ajuda a ancorar a memória, uma espécie de diário da memória, da percepção.
Observe padrões, não episódios isolados.
Quando possível busque validação em fontes seguras — amigos, terapia, referências externas.
E, principalmente, aprenda a confiar de novo no seu desconforto.O desconforto é um sinal. Ele não surge do nada.
Gaslighting só funciona quando a sua voz interna é silenciada. E o caminho de volta não é provar que o outro está errado — é lembrar que você não está louco, nem exagerando, nem “sensível demais”, dramática ou exagerada.
A lua afeta a vida na terra, certo? Já ouviu isso? Ou seja, marés, plantios, colheitas. Se a lua um cisco cósmico afeta a vida na terra, imagina uma personalidade tóxica debaixo do mesmo teto que você.
Os efeitos são severos e definitivos nas suas emoções, você não está vendo coisas, nem exagerando, ou sendo exagerada.
Por fim, tudo isso é o soluço da sua tomada de consciência, um esboço do início da recuperação emocional.
Confia!
Marcos Bersam
Psicólogo
