No consultório sempre escuto dos pais:

– Esse menino não larga o celular.

– Essa menina fica horas no quarto com o celular?

E muitos pais falam comigo e reclamam muito dos filhos acerca do uso descontrolado e sem disciplina desse dispositivo eletrônico, porém para mim o maior desafio dos pais é não terem autoridade para corrigir os filhos.

Quase sempre onde há descontrole do celular, também há adultos sem disciplina com o uso do celular.

Outro dia um adolescente, me disse:

-Ah, Marcos. Meus pais são muito hipócritas, pois no café da manhã já estão no celular e quando estão na cama, cada um, no seu mundo vidrados no celular.

O primeiro passo para mudar essa realidade e ter efetividade na forma de usar o celular, precisa haver exemplo dos adultos, tarefa difícil. Ou seja, sempre falo somos muito bons em ensinar aquilo que precisamos aprender.

De fato, somos severos com o outro, mas muitas vezes para continuarmos sendo negligentes com nossa consulta.

Estudos recentes indicam quadros de ansiedade, bem como acentuação da depressão relacionada com a quantidade de horas que um jovem passa preso a tela de um celular.

Ruas perigosas, violência crescente, pais ocupados e exaustos de tanto trabalho, com certeza, faz do celular um alívio, assim acreditam que dentro de casa, mesmo na tela, estão seguros.

Uma legião de jovens emocionalmente comprometidos, pelo excesso de comparação, filtros , edições e recortes de uma vida centrada em likes e seguidores.

Quando você entrega para um jovem um celular, também está dando poder. A grande questão é que poder precisa vir junto com responsabilidade. Qual seria o caminho?

Por certo, nenhum pai começa o dia pensando:

Hoje vou acabar com as emoções do meu filho!

De fato, não por falta de amor — mas, muitas vezes, por um excesso de proteção mal direcionada.

Como psicólogo com anos de escuta clínica, o que vejo no consultório ecoa o reflexo de uma sociedade com a ânsia de ter e o tédio de possuir.

O amor precisa de limite, mas para isso é necessário ter tempo, atenção, consciência e decisão. Somos muito preocupados com a saúde do corpo, mas quando falamos de emoção apequenamos sua importância.

Uma criança ou adolescente com uma dermatite é levada imediatamente a uma consulta médica, mas se esse mesmo jovem estiver dentro do quarto o dia todo nas redes sociais, sem amigos, sem interesse, claro, não passa de uma fase da adolescência.

Há uma geração que cresceu mais vigiada do que nunca no mundo físico, mas completamente exposta no mundo digital. Crianças que não puderam subir em árvores, andar sozinhas até a esquina ou lidar com pequenos riscos — mas que, aos 10, 11 anos, já estão imersas em redes sociais, comparações constantes e validação externa. Sempre a necessidade de obter a melhor foto, conseguir recorde de likes e seguidores.

O problema não é a tecnologia em si. É o desequilíbrio.Quando uma criança não experimenta frustração no mundo real, ela não desenvolve musculatura emocional. E quando ela entra no ambiente digital — onde a rejeição, a comparação e a exposição são amplificadas — ela simplesmente não tem recursos internos para lidar com isso.

O resultado aparece de forma silenciosa no início: ansiedade, dificuldade deconcentração, necessidade constante de aprovação. Depois, isso pode evoluir para quadros mais intensos: isolamento, baixa autoestima, sensação de inadequação crônica, ideação suicida.

Há algo que muitos pais não percebem: proteger demais também é uma forma de negligência emocional — porque impede o desenvolvimento da autonomia. E autonomia não nasce do conforto, nasce do enfrentamento.

Crianças e adolescentes que não sabem arrumar a cama, fazer um arroz, limpar o cocô do pet, no entanto, sabem monetizar na internet, vitalizar no YouTube, comprar seguidores

No fundo, o medo de não ser amado incentiva a ideia de quem isso vira através das redes sociais.

Cair, errar, se frustrar, se resolver sozinho tudo isso ensina.Ao mesmo tempo, deixar uma criança sozinha em um ambiente digital sem preparo é como colocá-la no meio de uma multidão de adultos desconhecidos e esperar que ela saiba se proteger.
Não é razoável.

O caminho, então, não é retirar o mundo — nem o físico, nem o digital. É equilibrar. É permitir experiências reais, contato com o risco saudável, convivência social fora das telas. E, principalmente, presença emocional: diálogo, escuta e orientação.
Porque no fim, o que forma um adulto emocionalmente saudável não é a ausência de dificuldades — é a capacidade de atravessá-las.

E essa capacidade não nasce sozinha. Ela é construída, aos poucos, na forma como educamos, protegemos e também na forma como permitimos que o outro cresça, mas o maior de todos os desafios é que é impossível educarmos jovens e adolescentes sem olharmos também para nós mesmos, e claro, perceber que a mudança verdadeira deve começar com nosso exemplo.

Marcos Bersam

Psicólogo

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