Se eu fosse dar uma única dica para você se conhecer melhor, com certeza, daria essa:

Aquilo que gera fúria, ódio e desconforto em você, tal como uma urgência em julgar alguém, diz mais sobre você do que do outro.

Então, posso dizer sem titubear que existe um atalho eficiente para entender as pessoas. No entanto, ele funciona melhor ainda quando você tem coragem de usá-lo para olhar para si mesmo.Esse atalho aparece no julgamento precipitado.

No consultório, isso fica muito claro. Alguém começa falando de outra pessoa — incomodado, irritado, cheio de certezas — e, pouco a pouco, a conversa revela outra coisa. O foco muda.

O que parecia ser sobre o outro começa a apontar para dentro. Ou seja, o julgamento quase nunca é neutro, inocente.
Quando você se incomoda com alguém “sonhador demais”, dificilmente é só uma observação. Muitas vezes, existe ali uma história silenciosa: talvez você já tenha sonhado assim e desistido, ou talvez nunca tenha se permitido sonhar de verdade.

Em ambos os casos, ver alguém fazendo isso desperta algo.E o incômodo nasce daí. É como se o outro funcionasse como um espelho, assim aquilo que você não consegue ou pode enxergar em si mesmo, projeta e recai sobre o outro, por isso você fica incomodado. De fato, não é sobre o outro, mas sobre o fato de enxergar no outro aquilo que você recusa em admitir.

A mesma lógica aparece em outras situações. A felicidade do outro pode irritar por você enxergar aquilo que lhe falta. A ambição alheia pode incomodar não por exagero, mas porque lembra uma vontade que ficou para trás.

O outro, sem perceber, encosta em pontos que não estão resolvidos.E o julgamento surge como uma tentativa de afastar isso.

Todo julgamento traz em sua essência uma confissão emocional.Da próxima vez que alguém te provocar esse tipo de incômodo, vale a pena segurar a resposta pronta e fazer uma pergunta simples, mas honesta:

Por que isso me afeta tanto?

Às vezes, a resposta revela algo que você perdeu. Outras vezes, algo que ainda deseja. Em alguns casos, mostra partes suas que você prefere não reconhecer.

De qualquer forma, revela.
E isso muda a qualidade do olhar.
Além disso, quando alguém te julga, o mecanismo não é tão diferente. Muitas críticas carregam mais sobre quem as faz do que sobre quem as recebe. São, com frequência, formas indiretas de expressar frustrações, medos ou desejos que não encontram outro caminho.

Entender isso não elimina o desconforto, mas traz perspectiva.No fim das contas, as pessoas ao seu redor funcionam como espelhos — alguns mostram partes que você reconhece, outros mostram partes que você evita.

Nos relacionamentos estão uma oportunidade única de desenvolvimento pessoal, quando for julgar alguém esteja certo que você estará fazendo uma confissão velada, quiçá também estará assinando sua condenação. A sua interpretação não é sinônimo de verdade, você enxerga não apenas com a retina, mas com seus pensamentos.

Por fim, entender isso faz você tomar conhecimento dos pensamentos automáticos, bem como fazer você mergulhar naquelas emoções proibidas e desejos recalcados, por isso a terapia é um lugar seguro para essa odisseia de autoconhecimento dar início.

 

Marcos Bersam

Psicólogo Online e Presencial

 

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