Ao longo da minha prática como psicólogo clínico, tanto no online quanto no presencial, há um tipo de situação que se repete com mais frequência do que as pessoas imaginam — e que, sinceramente, exige bastante maturidade para ser conduzida dos dois lados.

Muitas vezes, o paciente chega buscando um espaço de acolhimento, o que é absolutamente legítimo. Mas, junto com isso, também vem — ainda que de forma inconsciente — uma expectativa de não ser confrontado. Como se a terapia pudesse funcionar apenas como um lugar de validação. Seu psicólogo não tem compromisso com seu Ego, mas com o seu autoconhecimento, sempre digo que você deva desconfiar de alguém que fala:

– Adoro meu Psicólogo

De fato, nem sempre o Psicólogo desperta as melhores sensações e sentimentos, pois ao ser confrontado, questionado ou convidado a sair daquele lugar quentinho, confortável e aveludado não é nada fácil.

O Psicólogo, o terapeuta costuma lidar dentre tantos desafios com emoções represadas que são revistas na relação transferências com o analista.

E é justamente aí que começa uma parte importante do trabalho.Com o tempo, alguns padrões vão aparecendo dentro da própria relação terapêutica.

A pessoa que valoriza muito a pontualidade, mas se atrasa na sessões ,Que se incomoda quando é cobrada, mas cobra com rigor o tempo exato das consultas. Que defende seu tempo, seu dinheiro, suas regras, mas tem dificuldade de sustentar esses mesmos critérios quando o olhar se volta para si.

E quando isso é apontado — com cuidado, mas com clareza — o incômodo surge. Às vezes em forma de resistência, às vezes em forma de questionamento, e em alguns casos até como um afastamento emocional.

Daí faltas, atrasos,bem como o esquecimento de pagar a sessão é um sinal importante da tentativa de autossabotagem.

Do ponto de vista clínico, isso não é um problema. Pelo contrário, é material valioso.
Estamos falando de projeção e transferência em ação.

A projeção aparece quando aquilo que é difícil de reconhecer em si mesmo ganha forma no outro — e passa a ser criticado, rejeitado ou combatido fora. Já a transferência faz com que o terapeuta, em certos momentos, deixe de ser apenas o profissional ali na frente e passe a ocupar, simbolicamente, o lugar de outras figuras importantes da história daquela pessoa. E, sem perceber, o paciente reage como sempre reagiu.

A pessoa que sempre foi abandonada, não recebeu afeto também ensaia uma triangulação com outro profissional.

Ah! Vou voltar a fazer terapia com ciclano.

O desafio do terapeuta não é apenas perceber isso, mas sustentar o processo sem cair em dois extremos: nem suavizar a ponto de reforçar padrões, nem endurecer a ponto de romper o vínculo.

A terapia não é um anexo de um SPA, nem uma sessão de massagem, também não precisa ser a ante sala do purgatório. A terapia é, ou deveria ser ,o berçário da transformação.

Há momentos em que a intervenção precisa ser mais direta. Em que um limite precisa ser mantido. Em que uma devolutiva precisa ser feita no tempo certo, mesmo sabendo que pode gerar desconforto.

Não se trata de confronto pelo confronto. Existe intenção clínica nisso. Ou seja, dinheiro, honorários, atrasos, esquecimentos, falas, cobranças são materiais para subsidiar uma nova perspectiva sobre crenças e decretos emocionais antigos.

Às vezes, ao “marcar” um comportamento — como uma cobrança, um esquecimento recorrente, ou uma incoerência entre discurso e prática — o objetivo não é apontar erro, mas gerar consciência. É permitir que a pessoa se observe em funcionamento real, e não apenas naquilo que acredita ser.
E isso, inevitavelmente, toca em algo mais profundo.

Sendo assim, reconhecer que usamos uma régua rígida com o outro e mais flexível conosco é  o esperado daquele paciente que não deseja enxergar o óbvio.

Sempre falo o seguinte que somos muito bons em exigir aquilo que ainda não conseguimos oferecer, fazer ou entregar.

Mexe com a autoimagem, com o ego, com a forma como a pessoa se percebe no mundo.
Por fim , é justamente nesse ponto que a terapia deixa de ser confortável e passa a ser transformadora.

No fim das contas, o compromisso do processo terapêutico não é com o conforto imediato, mas com o autoconhecimento real. E isso exige coragem — tanto de quem conduz, quanto de quem se permite olhar para si sem filtros.

Marcos Bersam

Psicólogo

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