Como Psicólogo sempre nas consultas recebo a seguinte afirmação:

– Tive “Burnout”!

Mas afinal, que de fato significa esse diagnóstico?

Definitivamente, palavra “burnout” virou comum — mas a experiência, quando acontece de verdade, está longe de ser algo simples ou banal.

No consultório, ela costuma aparecer de forma silenciosa. Raramente alguém chega dizendo: “estou em burnout”. O que aparece são frases como: “eu estou cansado o tempo todo”, “não tenho mais vontade de nada”, “qualquer coisa me irrita”, ou ainda “eu não me reconheço mais no trabalho”.

O burnout — ou Síndrome de Burnout — não é apenas cansaço. Também não é só estresse. Ele é o resultado de um desgaste emocional prolongado, geralmente ligado ao trabalho, mas que começa a invadir todas as outras áreas da vida.

No início, a pessoa até aguenta. Vai empurrando, se cobrando mais, tentando dar conta. Muitas vezes, inclusive, é alguém responsável, comprometido, que dificilmente diz “não”. Só que existe um limite — e quando esse limite é ultrapassado por muito tempo, o corpo e a mente começam a responder.

Costumo dizer que é como se você tivesse um carro com tanque de combustível furado, ou seja, você até tenta abastecer, mas depois de certo tempo, nada, absolutamente nada consegue recarregar suas forças, dar mais energia. Tal como um carro potente, mas que não sai do lugar.A energia vai embora.A motivação diminui.
Aquilo que antes fazia sentido, hoje , começa a pesar.

E não é só físico.Existe também um esvaziamento emocional. A pessoa se distancia, fica mais fria, às vezes mais irritada, às vezes indiferente. Coisas simples passam a exigir um esforço enorme. Decidir, concentrar, manter o foco — tudo parece mais difícil.

Outro ponto comum é a sensação de ineficácia. Mesmo fazendo muito, a pessoa sente que nunca é suficiente. Como se estivesse sempre devendo, sempre atrás, sempre aquém do esperado.

E aqui entra um aspecto importante: o burnout não acontece do nada.
Ele costuma ser construído aos poucos, em rotinas onde há excesso de cobrança, pouca pausa, dificuldade de colocar limites e, muitas vezes, uma tendência a se responsabilizar por tudo. É aquele perfil que segura mais do que deveria, que tenta resolver tudo, que raramente se permite parar, nunca acostumou a delegar.

Só que o corpo não negocia indefinidamente.Chega um momento em que ele cobra com juros e tudo que tem direito.

Muita gente tenta sair disso apenas descansando alguns dias, tirando férias, se afastando temporariamente. Isso pode ajudar — mas, na maioria dos casos, não resolve sozinho. Porque o burnout não é só sobre excesso de trabalho. É também sobre a forma como a pessoa se relaciona com o próprio limite, com a própria cobrança e com o próprio valor. O valor e autoestima está associado a performance, ao senso de utilidade, claro, vejo como também da tentativa de controlar.

Por isso, o cuidado precisa ser mais profundo.Envolve reorganizar rotina, sim.
Mas também envolve aprender a dizer “não” sem culpa. De fato, algumas pessoas dizem para mim no consultório, precisei chegar aos 50 anos para dizer NÃO sem culpa.

Sem esquecer , claro, da necessidade de rever expectativas irreais.
E, muitas vezes, olhar para padrões internos que mantêm esse ciclo acontecendo.
Buscar ajuda profissional faz diferença nesse processo — não só para aliviar os sintomas, mas para entender o que levou até ali.
Porque o burnout não é sinal de fraqueza.

Por fim, na maior parte das vezes, ele aparece justamente em quem tentou ser forte por tempo demais, “boazinha” demais, dedicada ao excesso, responsável e eficiente.

E agora a pessoa necessita de ser justa com suas necessidades e limites, nessa jornada possibilidade de se reinventar é o primeiro passo para a recuperação da saúde emocional.

 

Psicólogo Marcos Bersam

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