Como Psicólogo clínico percebo toda semana como algumas pessoas relutam em enxergar o óbvio, ou seja, está alí, cristalino como uma água de um rio que despediu da nascente.
O autoengano é comum entre os apaixonados, dizem que o amor é cego, mas os apaixonados costumam não querer enxergar o elementar.
Tem verdades que não chegam com delicadeza. Elas não pedem licença, não suavizam o impacto. Apenas se apresentam — e doem. Essa abaixo é uma delas:
Quem te ama te prefere, te escolhe e te elege, não enrola.
Pode parecer duro, mas há algo de profundamente organizador nisso. Porque, quando o afeto é real, ele se traduz em direção. Não perfeita, não constante o tempo todo, mas reconhecível.
O Amor não é só sentimento interno; é também movimento externo, acima de tudo uma decisão com uma atitude determinada.
Sempre falo nas minhas consultas como Psicólogo que trabalha com relacionamentos, não basta dizer que te ama, mas como a pessoa pretende amar você.
É presença que se constrói, não promessa que se adia. Entretanto, aquilo que chamamos de amor está atravessado por outras coisas: medo de perder, necessidade de validação, dificuldade de ficar sozinho.
E então a relação vira um lugar confuso, onde você não sabe se está sendo amado ou apenas mantido por perto. A psicologia já descreveu bem esse terreno — vínculos ansiosos tendem a se alimentar de sinais intermitentes, de pequenas doses de atenção que mantêm a esperança viva, mesmo quando o essencial falta.
E é aí que a pessoa começa a negociar o inegociável.Você começa a justificar ausências. Ao traduzir silêncio como cansaço. Nomear de “fase” aquilo que já virou padrão, por certo, não é ingenuidade. É uma bomba relógio.
O problema é que, quanto mais você tenta entender o outro, menos você escuta o que está evidente. Porque o amor, quando existe de forma minimamente disponível, não precisa de tantas explicações. Ele se mostra nas escolhas simples: no tempo que se abre, no interesse que se mantém, na constância possível dentro da vida real.
Não se trata de exigir perfeição — relações saudáveis também têm falhas, desencontros, dias ruins. Mas há uma diferença silenciosa entre alguém que está ali, mesmo imperfeito, e alguém que nunca chega de verdade. Entre quem erra tentando ficar e quem se ausenta se explicando.
Quando alguém te ama, você não precisa disputar espaço, não precisa provar valor o tempo todo, tampouco não precisa viver em estado de espera.
Finalmente, no fundo, ser escolhido não é sobre intensidade — é sobre clareza.
E talvez a parte mais difícil seja admitir isso não sobre o outro, mas sobre si. Logo reconhecer o quanto, em alguns momentos, você aceitou menos do que precisava para não entrar em contato com um vazio maior. O quanto insistiu em ser opção enquanto dizia a si mesmo que era escolha.
Essa é a verdade que machuca, mas também liberta: não é amor quando você precisa se convencer o tempo inteiro de que está sendo amado.
Amor, quando acontece, não te deixa em dúvida permanente.Ele não te confunde — ele te encontra, abastece de paz, bem como atitudes robustas de quem sabe o que quer da vida.
Marcos Bersam
Psicólogo Online e Presencial
Relacionamentos, autoestima e autoconhecimento.
