Durante esses anos como Psicólogo e terapeuta pude constatar que a memória após um rompimento amoroso demora um bom tempo para voltar ao normal.

A pessoa que passa por um rompimento amoroso, principalmente um abusivo, costuma preencher lacunas com um amontoado de momentos pontuais das coisas amenas e lembranças adocicadas.

As humilhações, conflitos, brigas são escanteados para os porões mentais como uma forma de autossabotagem.

No entanto, comumente, essa não foi uma história de amor com momentos de crise, mas sim um filme de terror com momentos de alívio.

Sempre falo em minhas consultas, antes de extrair a ansiedade e a angústia de um paciente, também é preciso ajustar, reconfigurar algo fundamental:

– A expectativa, bem como aquela esperança que fez você anular a si mesmo, negociar sua dignidade.

Guarda isso: Você não sente falta da pessoa — sente falta de quem você era com ela.

Tem saudades que confundem.Não são exatamente da pessoa, mas do jeito que você se sentia quando estava com ela.
E isso muda tudo.

Porque, quando um relacionamento acaba, o que dói não é só a ausência do outro. É a ausência de uma versão sua que só existia ali. Sendo assim, não era da pessoa que você sente falta, mas dá ideia de quem  poderia vir a ser.

Uma versão mais leve, mais disponível, mais viva. Uma versão que ria com facilidade, que fazia planos, que acreditava.

Você era movido pela esperança de que podia mudar o outro, de ser suficiente, de se redimir da culpa de não ter sido suficiente. De provar seu valor, claro, tudo isso sendo muito familiar para você, pois na infância você também deve ter se esforçado para obter o amor dos pais, quando não era isso você conviveu com um lar instável e confuso, pais ausentes ou imaturos.

Você não está só tentando superar alguém.
Está tentando entender para onde foi aquela parte de você.E é por isso que dói tanto.
A mente tem um jeito curioso de lidar com a perda: ela seleciona memórias. Apaga o desconforto, suaviza as falhas, ilumina os momentos bons como se fossem a história inteira. Aos poucos, você começa a sentir falta de algo que, muitas vezes, nem existia do jeito que você lembra.

Não é sobre a pessoa.
É sobre a experiência emocional que você viveu com ela, sobre a promessa do que ela faria por você. O outro não soube te amar, não por culpa sua.

Ninguém poderá nomear suas necessidades tão bem quanto você mesmo.
Sobre como você se sentia desejado.
Sobre como parecia mais fácil ser você.
Sobre como a vida tinha mais cor.
Só que tem um ponto importante — e difícil de aceitar:essa versão sua não foi criada pela outra pessoa.

Ela foi despertada.
Isso significa que aquilo que você sente falta… ainda é seu.
Mas, no meio da dor, é comum fazer o caminho inverso. Em vez de olhar para dentro e tentar reconstruir esse estado, você projeta tudo no outro. Acredita que só aquela pessoa era capaz de te fazer sentir daquele jeito. E, sem perceber, transforma alguém comum em insubstituível.

É aí que nasce a prisão emocional.Você não está preso à pessoa.Está preso à sensação.A uma ideia, uma promessa de resgate de si mesmo.

E quanto mais você tenta reviver isso voltando para o passado, mais se afasta da possibilidade de reconstruir isso no presente.

Entenda que a  verdade é menos romântica — e mais libertadora:ninguém tem o poder exclusivo de te fazer ser quem você foi.
Relacionamentos são encontros. Eles potencializam partes da gente. Mas não criam do zero aquilo que não existe. Relacionamentos não são para casar, ter filhos, bodas, relações são oportunidades de crescimento e desenvolvimento pessoal, quando não há mais o que aprender terminam, lembre-se que podem terminar, mesmo as pessoas estando debaixo do mesmo teto por conveniencia.

Se você foi mais confiante, mais aberto, mais intenso, pois isso já estava em você.
A outra pessoa só encontrou o caminho até isso.A pergunta agora não é “como eu trago essa pessoa de volta?”
É: “como eu volto para mim?”
Talvez a saudade seja, na verdade, um chamado.Não para reviver o que passou,
mas para resgatar o que ficou esquecido em você.
Por fim , no fundo, o que você procura
não foi embora, muitas vezes, você pode se surpreender que nunca chegou. A única certeza é que você precisa urgentemente voltar a se amar.

Marcos Bersam

Psicólogo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *